Ok, já sabes que resolver o cubo vicia (se não, começa por aqui). Mas há uma pergunta que merece uma resposta séria, sem rodeios: o que é exatamente que estás a treinar quando lhe dás voltas durante meia hora numa terça-feira qualquer? Mais do que parece. E não, não é "inteligência" em abstrato — é bem mais concreto do que isso.
Concentração: o mundo reduz-se a seis faces
Há um motivo para, enquanto resolves, deixares de ouvir o que te estão a dizer (desculpa, família). O cubo mete-te num estado de concentração total muito parecido com o que procuram as técnicas de mindfulness: a atenção estreita-se até que só existe isso, à frente das tuas mãos. Nada de notificações, nada de vinte separadores abertos. Só tu e um problema com solução garantida — o que já é mais do que a maior parte do dia te oferece.
Paciência, sem te aperceberes
Ninguém se senta a "praticar paciência" de propósito — soa a trabalhos de casa. Mas resolver o cubo impõe-ta sem pedir licença: vais falhar a mesma fórmula quinze vezes antes de te sair bem uma. Vais desmontar sem querer algo em que estavas há dez minutos a trabalhar. E vais tentar outra vez, porque a alternativa — deixá-lo ali, a meio — é pior do que aguentar mais um pouco. Essa tolerância à frustração que vais construindo cubo a cubo tem o hábito de se infiltrar depois em coisas que nada têm a ver com faces coloridas.
Superação: contra quem competes é contra o teu eu de ontem
Esta é, provavelmente, a parte mais viciante de todas. O cubo dá-te um número — o teu tempo — e esse número não mente nem te compara com ninguém além de ti mesmo há uma semana. Baixar de três minutos para dois. De dois para um. Cada melhoria é tua, mensurável, inegável. Se queres pôr-lhe um cronómetro a sério, com médias oficiais ao estilo WCA, temos um feito mesmo para isso.
Visão espacial: rodar o cubo na tua cabeça antes de lhe tocares
Quando começas, rodas uma face e tens de olhar bem para o que aconteceu. Com o tempo, começas a antecipá-lo: rodas e já sabes, antes de os teus olhos acabarem de processar, onde cada peça foi parar. Isso é visão espacial a treinar-se em tempo real — a mesma capacidade que depois te torna mais confortável a ler um mapa, a estacionar num espaço justo ou a montar um móvel sem instruções. Há estudos que relacionam diretamente esta capacidade com o raciocínio abstrato exigido pelos cursos técnicos. O cubo não sabe disso, mas está a treinar-te também para outras coisas.
"Lookahead": a arte de saber onde está a tua peça antes de a olhares
Isto é o mais parecido com um superpoder que vais conseguir com um brinquedo de 5 euros. Na comunidade de speedcubers tem nome próprio — lookahead — e até tem fases com nome: primeiro detetas onde está a peça de que precisas (Spotting), depois aprendes a segui-la com o olhar enquanto terminas o passo anterior (Tracking), e no final, simplesmente, já a sabes sem a procurar (Knowing).
Dito de outra forma: o teu cérebro aprende a manter a conta de algo que não está a olhar diretamente. É memória de trabalho espacial pura, treinada sem te apercederes — e é, provavelmente, a competência que separa quem "resolve o cubo" de quem "resolve o cubo depressa e sem pensar".
Se estás a ler isto a pensar no teu filho ou filha
(Sabemos que parte de quem lê isto não procura para si próprio. Este é para vocês.)
O cubo tem uma vantagem que poucos "benefícios para crianças" podem exibir: não é preciso vendê-lo. Uma criança que resolve a primeira face sozinha, sem que ninguém a convença, já quer a segunda por conta própria. Isso não acontece com os vegetais.
O que realmente fica: melhor concentração (a mesma que depois faz falta para os trabalhos de casa), tolerância à frustração treinada da forma mais honesta possível —falhando vezes sem conta até sair—, e motricidade fina, porque os dedos também aprendem. E há ainda quase um bónus: a confiança real de ter conseguido algo difícil sozinha, sem ajuda de um adulto nem de um ecrã a jogar por ela.
Sobre a idade: não é preciso esperar que seja "crescido o suficiente para isto". O recorde mundial atual, 2,76 segundos, pertence a um miúdo de nove anos. Não é preciso chegar lá perto — mas deixa claro que a idade não é a barreira que parece ser.
E sim: é um dos poucos passatempos modernos de uma criança que não vem com ecrã incorporado. Hoje em dia, isso já é quase um benefício por si só.